Usagi Drop é um daqueles animes que não se tem muita expectativa antes de começar a assistir. De relance, a trama parece transbordar drama, tentando te forçar ao choro e nada mais, mas logo vem a surpresa: o anime tem muito mais profundidade do que se pensava.

O plot do anime, responsável por criar a expectativa errônea acima, é o seguinte:

Durante o funeral de seu avô, Daikichi se surpreende com a descoberta de que, durante a velhice, já viúvo, o falecido se envolvera  secretamente com uma jovem e ela acabara por engravidar. O avô tomara a responsabilidade de cuidar da criança que gerara, mas com sua morte e o sumiço da mãe, não houve quem cuidasse dela. Rin – como ela se chama -, então, se vira abandonada, e nenhum de seus parentes, com suas vidas já estruturadas, mostrou disposição para tomar a guarda da garota. Daikichi, vendo isso, se sente incomodado com o descaso da família e decide ele mesmo cuidar da pequena, mesmo que isso mude significantemente sua vida.

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O anime, de cara, surpreende ao expor uma situação bastante delicada e “adulta”, mostrando a insensibilidade das pessoas frente a uma criança que necessita de um lar. E o anime segue com temáticas e dilemas mais adultos até o final, justificando muito bem a classificação de Josei (classificação de mangás e animes voltados ao público feminino, porém mais adulto, sendo assim mais realista e maduro), característica ótima, já que impediu a estória de cair no sentimentalismo puro e raso.

Não vemos simplesmente a evolução do relacionamento de Daikichi e Rin; vemos também todos os dilemas resultantes disso, como, por exemplo, a mudança de hábitos necessária após o protagonista adotar a menina, mostrando como a responsabilidade afetou toda sua vida e como ele encarou as mudanças que foi forçado a fazer.

Utilizando-se dos muitos personagens secundários (como a mãe de Rin e os colegas de trabalho de Daikichi), a estória consegue mostrar de outros ângulos e de que outras formas os filhos impactam a vida, as alegrias e as escolhas das pessoas, para os lados bons e ruins, fazendo belas demonstração de como o amor dá forças às pessoas para enfrentarem problemas, dores e frustações. Tudo seguindo, ainda, uma linha bem adulta. Afinal, a dúvida sobre o divórcio quando se tem filhos e temas semelhantes são bem delicados, e por isso dificilmente explorados.

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A evolução e construção da estória é bastante envolvente. Ao mesmo tempo que o anime oferece a cada episódio um problema ou temática, no modelo do gênero Slice of life (clique AQUI para saber o que é isso), também há a criação de uma progressividade, dividindo o relacionamento de Daikichi e Rin em algumas “etapas”. O problema é que essa progressividade acaba gerando a expectativa por um desfecho – mesmo sabendo que é um anime Slice of life -, que não acontecerá. Não há acontecimento ou “lição final” que dê o gostinho de conclusão.

A arte do anime é quase impecável. Misturando algo puxado para o lado da aquarela com a técnica convencional, o visual condiz exatamente com o ar “fofinho” do anime, apesar de, às vezes, ter algumas falhas na impressão de perspectiva. A trilha sonora (que você pode conferir acima) segue a mesma direção, sendo tão boa e conveniente quanto a arte.

Pode-se dizer que Usagi Drop é um ótimo anime, apesar de não tão marcante e memorável. É um lindo ensaio sobre a paternidade (e a maternidade), suas dificuldades e sacrifícios.

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Jornalista, aventureiro da internet e assistidor de desenho animado, Daniel Marques é brasiliense, tenta continuar sempre aprendendo e jura que é uma pessoa legal.

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2 Responses

  1. Tabibito-san

    E aí D. Arquimedes!

    Há pessoas -poucas,porém há- que não leem,por ventura spoilers.O que tenho visto é que para críticas de filmes,as sinopses se estendem e revelam spoilers.O ponto é que pode ser preferível ter informação nenhuma do que ter informação errada,convencionemos assim.

    Eu gosto dessa cena da imagem que muitos utilizam,http://www.papodecafeteria.com/wp-content/uploads/2015/02/Usagi3.jpg, que não é spoiler por ser autoexplicativa, todavia é de Daikichi não sabendo que tamanho de roupa Rin usa;aí ele apenas pega um modelo de T-shirt comum e depois de “Haaai(Siiim)!!” ela se vira contentemente para ele provar nela,e de braços abertos sem por as mangas juntas aos braços.Essa cena demonstra muito do ajuste de um ao outro,por isso deve ser tão escolhida,ainda que por muitas vezes não soe tão aproveitada em significância.

    Certamente ‘lição final” é em aspas;tem relacionamento que aconteceria após certos eventos ou não existiria **SPOILERS SIGNIFICATIVOS* Aquela que não sacrificou a vida profissional não se inclinou a dividir a vida com a maternidade;o oposto de Daikichi.No entanto,” a filha de peixe”,Rin,é curiosa e parece herdeira do talento;ela esbarraria com a genitora pelos rumos que a vida estava dando. *FIM DE SPOILERS SIGNIFICATIVOS**

    Na arte e trilha musical,considero eu que se deixa ir pela visão infantil(Rin etc) e pela adulta(Daikichi etc),não me é pela oscilação de qualidade etc.

    – P.S.: Os comentários/respostas em PdCs ou estão ficando ocultos ou estão excluídos;vê-se(às vezes) ou não se vê algum tempo após eu receber a notificação por e-mail.Estranho…

    See U..

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    • Daniel Arquimedes

      Olá, Sr. Viajante!

      Quando falo “Lição final”, me refiro a um desdobramento de roteiro que explicite isso, como costuma acontecer em vários animes e outras produções.

      Quanto aos seus comentários que estão demorando de aparecer, é o seguinte: quando um comentário possui mais de dois links embutidos então é necessário que ele passe por moderação antes de ser publicado. Parece bobo, mas é importante pra evitar alguns spans desagradáveis.

      Obrigado pelo seu comentário e pela visita! Não esqueça de compartilhar o conteúdo do Papo de Cafeteria com a galera! 😉

      See U 2

      Responder

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