Se existem animes que podemos classificar como clássicos, Fullmetal Alchemist: Brotherhood (FMA:B) com certeza é um deles, e um dos mais importantes. Lançado em 2009, pela Square Enix, a animação baseada no mangá de Hiromu Arakawa, se tornou referência de qualidade para o público. Para comprovar isso basta uma breve pesquisa na internet. Dificilmente se achará uma lista de melhores animes sem FMA entre os primeiros. Inclusive, o anime tem ocupado insuperavelmente o título de melhor anime no site MyAnimeList.

Edward e Alphonse Elric são irmãos, que inspirados no pai, desde cedo estudaram alquimia – uma técnica usada para modificar e transformar objetos em outros. Edward e Alphonse tiveram uma infância conturbada. Seu pai fora sempre ausente e em certo momento sua mãe adoece e morre. Desesperados, os irmãos tentam trazer sua mãe de volta à vida utilizando alquimia. Eles falham, descobrindo assim, na prática o porquê da alquimia humana ser considerada um tabu. Eles também entendem na prática a maior lei da alquimia: a lei da troca equivalente (Tōka kōkan), que diz que para se criar algo deve-se dar em troca algo de igual valor. Em troca da possibilidade de se fazer a poderosa alquimia humana, os irmãos Elric pagam caro: Edward perde sua perna e Alphonse seu corpo. E numa tentativa de salvar o irmão, Edward prende a alma de Alphonse em uma armadura vazia, dando seu braço como pagamento.

Agora, Edward (utilizando membros mecânicos – automails) e Alphonse partem em uma viajem em busca da Pedra Filosofal, que permitiria a eles recuperar seus corpos. Mas eles descobrem que há muito mais escondido por trás da lendária pedra.

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É importante ressaltar que apesar de ter o começo igual ao antigo Fullmetal (de 2003), há uma grande diferença entre os dois, inclusive conceitual. A Pedra Filosofal, os Homúnculos e a Alquimia não são as mesmas coisas nos dois animes.

Uma das primeiras coisas que se nota ao assistir Fullmetal Alchemist: Brotherhood é a seriedade e fatalidade que envolvem a trama. Com certeza as cenas que mostram o passado dos irmãos são bastante chocantes e tristes. E essa estética acompanha o anime até o fim, se combinando com o grande envolvimento com os personagens, chegando ao ponto de se coagir o espectador a parar e pensar pelo “lado” dos vilões e se compadecer deles e de seu sofrimento. E tudo isso sem que fique artificial ou forçado.

O anime possui uma grande “densidade”. Nele há muitíssimo conteúdo embutido. Podemos notar várias camadas de informação, conceitos, ideias e conteúdo. Ao mesmo tempo que temos a trama principal dos irmãos Elric, há a apresentação do conceito, leis e funcionamento da Alquimia, do universo fictício criado, da política local e a lista continua.

E contribuindo para essa densidade temos os personagens secundários, que são fascinantes. É desenvolvido toda uma progressão pessoal de cada personagem, cativando grandemente o espectador. Nesse quesito, há um foco bastante grande no Coronel Roy Mustang – O Alquimista das Chamas, um dos personagens mais interessantes do anime, chegando a uma importância quase superior ao dos personagens principais.

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O universo do anime é muito legal e sólido, possuindo suas “leis fundamentais” que não podem ser quebradas e mantendo-se fiel a elas até o final. Há a noção de que assim como nós não entendemos nossa realidade completamente, eles também não entendem. Todo o background geográfico e político é muito bem feito. A relação de Amestris (o país onde se passa o anime) com os vizinhos não é ignorada, interferindo na trama e na trajetória dos personagens.

Mas, há alguns probleminhas. Apesar dos vários conceitos, existem lacunas gigantes. É notável que a alquimia do anime tem um caráter místico-científico, como é explicito em vários momentos do anime. Ao mesmo tempo em que se fala de elementos, composição química e experiências, se fala sobre canalização de uma “energia mística”, sobre Deus, almas, preces e coisas do tipo. Essa mistura é bem interessante, mesmo que não totalmente explicada, já que entendemos que os personagens também não a entendem completamente. Vale-se notar que nós não entendemos os fenômenos de nosso próprio mundo, como a gravidade, só sabemos onde ela está presente e como ela age, não seu total funcionamento e origem.

O problema é quando o anime começa a derivar conceitos importantes de conceitos não explicados. A sequência de acontecimentos final do anime é um exemplo disso. Talvez chegue até a negar conceitos anteriormente dados ao Portão da Verdade, por exemplo. Mas, apesar de tudo, isso não é muito prejudicial para o entendimento e apreciação do anime.

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Com toda essa densidade do anime, houve uma grande gama de assuntos e lições que puderam ser tratados. Derivando da troca equivalente temos o conceito de sacrifício pessoal. Algo como “Eu não conseguirei nada sem dar outra coisa em troca, como meu tempo, ou meu esforço”. Temos em FMA:B vários outros assuntos que são igualmente bem explorados. Temos o conceito de unidade do universo, são exploradas perguntas sobre o valor da vida, “poder” e claro, política, morte e vontade de mudança.

Mas não pense que assim que começar a assistir sua cabeça vai explodir de tanta informação. Tudo é entregado aos poucos no decorrer dos 64 episódios. No começo só o básico para a aceitação da realidade fictícia do anime é mostrado. Com o tempo você entende do que se trata a Pedra Filosofal, os homúnculos, coisinha por coisinha. E essas informações dadas na dose certa geram com sucesso o ar conspiracionista que quiseram dar ao anime. Você entende que tem algo muito muito grandioso ocorrendo por trás das cortinas, mas só entende-se o que é de pouco em pouco.

Mas Fullmetal tem algo que é bastante irritante: no anime todo, como já falamos, há grande tensão e sentimentalismo, necessitando assim de alívios cômicos e momentos mais leves. O problema é que nos primeiros episódios os alívios cômicos são colocados em momentos totalmente inoportunos, prejudicando o clima do anime, e até causando certa irritação em alguns. Com o tempo isso vai tomando jeito e sendo melhor explorado.

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E ainda há outra coisa que pode deixar algumas pessoas bravas. O anime possui uma certa acidez e irreverência em relação à assuntos religiosos. Por exemplo, Edward se declara ateu e critica a religiões por todo anime.

Sobre os quesitos visuais. Tudo é muito bem feito. FMA:B é uma superprodução, então é de se esperar que desenho e animação sejam perfeitos. O anime não abusa do 3D, apesar de apresentar ele em alguns momentos, diferente do que vemos por aí em muitos animes que usam desenfreadamente o recurso e acabam por prejudicar o visual. Mas, claro, não podemos dizer que o anime é perfeito. Existem alguns momentos que é notável uma pequena queda que qualidade de desenho e animação. Nada muito prejudicial.

Sobre a trilha sonora: ela é sensacional! As composições (que são muitas), são muito belas e entregam muito bem o sentimento de cada momento do anime. As músicas refletem muito bem toda a aura de todos os momentos. Há músicas mais enigmáticas, outras são mais tristes, outras apaixonantes. Ao todo foram feitos três CDs da OST (trilha sonora) do anime. Cheque a OST abaixo. Vale a pena!

Fullmetal Alchemist Brotherhood com certeza é um anime de grandíssima qualidade, mas não é um anime para todos os públicos. Por ser muito forte, apresentando cenas muito violentas e chocantes (às vezes até medonhas), não é recomendável ao “público desavisado”. Pessoas mais sensíveis podem ser atingidas por certos momentos do anime, incluindo pelas críticas religiosas. Por outro lado o anime é recomendadíssimo para pessoas mais acostumadas a animes desse gênero “mais pesado” e a pessoas que gostam de uma boa ficção fantástica ou científica.

Falando em Conspiração...

Percebemos várias vezes no anime muitas referências à antiga alquimia. Aquela que se acreditava durante a idade média. E também existem muitas outras referências à outros “ramos” do ocultismo. Pode-se ver vários símbolos retirados da cabala (um livro esotérico judaico) e símbolos elaborados por estudiosos dos tais escritos. Cito como exemplo os desenhos presentes no Portão da Verdade, que se tratam de uma representação mística dos caráteres divinos. O desenho em questão é a “Árvore da Vida” de Robert Fludd. Pesquise se quiser, para checar. Não vou me deter nisso, mas existem muitos outros símbolos do tipo espalhados pelo anime. Além da presença dos símbolos, várias vezes é repetido no anime que livros de alquimia são escritos em código para que pessoas desavisadas não os usem de forma errada. Seria então Fullmetal Alchemist um documento sobre alguma seita esotérica disfarçada de ficção fantástica?

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Jornalista, aventureiro da internet e assistidor de desenho animado, Daniel Marques é brasiliense, tenta continuar sempre aprendendo e jura que é uma pessoa legal.

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7 Responses

  1. Jony

    o que eu mais gostei desse anime…é que ele não apela pro lado “ecchi” , ele realmente se garante…coisa que hoje ta rara nos animes novos…praticamente todos tem sempre aquelas “ceninhas bestas” apelando pro lado sexual…(garotas com roupas provocantes e etc..)

    excelente review, você tem um ótimo olhar critico, deve se orgulhar disso…

    Responder
    • Daniel Arquimedes

      Obrigado pelo elogio, Jony!

      Realmente isso que você falou é verdade. Dá pra ver que FMA:B tem um modo mais “respeitoso” de mostrar as personagens femininas. Acho legal que isso deixa até mais legal a relação do Ed. com a Winry.

      Obrigado pelo comentário! ^^

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  2. Mr.J

    Na minha opinião este anime está no nível galático, pois poucos animes terrestres são tipo um enredo que não enjoa(claro que se pessoa não gosta muita de politica vai enjoa um bucado de episodio) todos os episódios tem algum valor e são usados pra explicar algo que está mais a frente, que dificilmente vejo nos animes de hj em dia que pra entender a historia só precisa assistir uns 4 eps(o primeiro e os 3 últimos o resto é só pra cumprir a agenda) FMA brotherhood não foi o primeiro anime que assisti todo mas foi oq mais repeti(acho que vi umas 5 vezes e ainda não me canso).Essa minha opinião. A review gostei seus argumentos até que concordei com alguns e outros fiquei meio que estranhando como “nos primeiros episódios os alívios cômicos são colocados em momentos totalmente inoportunos, prejudicando o clima do anime,” essa parte meio que não concordei até pq o Anime já colocar quem assiste em momentos de ação , informação, apresentando personagens não dá onde e “o” personagem(Acho que foi por causa desse personagem que vc devia ta falando ñ vou colocar o nome dele) que normalmente tem no anime é o cômico no enredo meio que o papel dele ela aliviar a pressão dos personagens e o bombardeio de informação que tem no começo(não diretamente no começo do começo) do anime.Não tenho nota pra esse anime até pq como coloquei no inicio ele é do nível galático.

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    • Daniel Arquimedes

      Oi, Mr J! Muito bom ver você por aqui! ^^

      Pois é. O enredo conseguiu dar as informações na dose certa pra não enjoar de tanta informação.

      Sobre os alívios cômicos: bem, eles estão lá. E com bastante maior “intensidade” no começo do anime. (e não falo só do Armstrong, mas também do Edward e outros personagens) Mas sobre isso ser bom ou não: eu achei ruim porque FMA propõe ser um anime com temas bem sérios e nos primeiros episódios eles tacam alivio cômico pra todos os lados. Acho que não é exatamente uma questão de opinião se é algo bom ou ruim, mas de impacto. Esse fator me impactou negativamente, do mesmo modo que impactou você positivamente. (…apesar de eu achar que dava pra manter o cômico e o sério sem que um atrapalhasse o outro…) Mas vamos combinar que sendo ruim ou não, isso não estragaria de modo nenhum a obra galática que é Fullmetal Brotherhood. ^^

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  3. Tabibito-san

    Td bem Daniel Arquimedes?

    Certamente está em 1º,todavia as variantes de Gintama dão às caras mais vezes,4 vezes,apenas falando.

    Ainda me lembro do feeling da introdução japonesa quanto à “Lei da Troca Equivalente”,todavia era da versão FMA sem “:Brotherhood”,a qual tem semelhanças fortes com essa;até certo ponto.Já pensei em baixar a “interpretação mais atual”,aí esqueci,depois lembrei,enfim,postergando(reticências).Embora para mim a sensação de “tirar o chão do seus pés” e concomitantemente “fazer o céu desabar sobre a cabeça”,caso se prefira outra metáfora ao tabu revelado aos irmãos de forma traumática.

    Ainda se compreende as questões das lacunas levantadas por ti,algum material relacionado e pré-conhecimento soa ser exigido,ou ajuda e talz.Muito frequentemente(quase sempre =p) auxilia ter uma noção científica,mitológica para “obras aleatórias” etc;falando assim por alto.Mas enfim,a casualidade da Lei Universal da Alquimia,a lei da equivalente,”agrega valor”. =D

    No mais,a trilha sonora acho ser como poucas em questão de Qualidade & Quantidade -se bem que conheço mais,contendo as OSTS também,em Full Metal Alchemist-.
    *NOTA 1: 64 episódios insinuam uma relação próxima com os benefícios da Lei da Troca Equivalente,será??O que pensa?
    NOTA 2: Que elogio de Jony,hein!Ganhou o dia. XD

    Ciao,como diriam os italianos.

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    • Daniel Arquimedes

      Olá, Tabibito-san!

      Realmente vale a pena assistir a versão mais nova de FMA. Depois de ver o Brotherhood, a primeira versão me pareceu mais como um improviso!

      Sobre a sua proposta de talvez o anime exigir um pouco de conhecimento previo na parde da qual reclamei: não acho que seja esse o ponto. Realmente me pareceu como falta de explicação.

      Obrigado pelo comentário! ^^

      Responder

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