Na temporada de inverno de 2016, em meio a tanto “mais do mesmo”, um anime chamou a atenção: Erased, ou Boku Dake ga Inai Machi (abreviado para BokuMachi). O sucesso inicial foi tanto que, com menos de 5 episódios lançados, Erased já figurava como 5º melhor anime no site My Anime List, por mais que após a finalização da série ele tenha caído no ranking. De qualquer modo, ainda podemos o considerar um dos animes mais notáveis, devido a excelência de sua execução e acima de tudo ao seu desprendimento do modelo padrão empregado nos animes.

Claro, Erased foi impecável em muitos sentidos. O desenho é de qualidade superior, assim como a trilha sonora, porém o que chama a atenção é o roteiro. Por mais que se suporte sobre uma premissa já batida, como é o tema de “viagens no tempo”, ele consegue criar uma originalidade e diferenciação a partir do escopo de referências que ele traz.

Do oriente para o ocidente

Inicialmente, para entender como BokuMachi se construiu, precisamos entender as pretensões de seus criadores. Esse anime, assim como Cowboy Beebop e Space Dandy, foi feito já com o intuito de ser exibido no exterior, principalmente nos EUA, e isso foi extremamente importante para o modo que o anime se construiria.

killer bokumachi erased

Como disse o próprio Itou Tomohiko, diretor da série, em entrevista ao Crunchyroll, Erased busca referências no ocidente. Isso se manifesta tanto no visual como no modo de construção de histórias. O anime foge dos elementos clichês, que, dependendo da aplicação, podem ser bastante irritantes. Não vemos o humor “galhofa” em momentos sérios, nem piadas (ou fanservice) sexuais. A série se estabelece seu tom entre o suspense e o drama e é fiel a ele até o último episódio, sem um deslize sequer. Isso demonstra uma solidez e fidelidade difíceis de encontrar em um anime.

Narrativa visual

O visual é bem pensado, de modo que recursos narrativos e recursos gráficos se unem para criar um jeito bastante interessante de se contar a história. Como Erased pende entre contar sobre a idade adulta e a infância do personagem principal, diferenças estéticas foram criadas para gerar a diferenciação entre os dois momentos. Um dos recursos que deu muito certo foi o uso da figura do “rolo de filme” para ilustrar as referências ao passado. Vemos um pouco da ilustração dessas técnicas na abertura do anime, que reflete muito bem a ideia de toda a série. (De longe, melhor abertura da temporada)

Todos esses recursos narrativos, inovadores para a mídia oriental, se unem a temáticas muito comuns aos animes e tudo se torna ainda mais emocionante. Temáticas como: a “remissão” da infância traumática, plot central de Ano Hana, por exemplo, e o tema das viagens no tempo, muito utilizadas em Steins;Gate e até em Madoka Magica, aqui tomam um novo ar com a inserção de uma nova forma de contar histórias.

E claro, nada disso seria possível sem o incrível roteiro de Taku Kishimoto (que também foi responsável pelos papeis de Usagi Drop, e Gin no Saji). Todo o roteiro é extremamente sólido e os personagens secundários são construídos de forma tão orgânica que poderiam existir mesmo sem o protagonista.

Em resumo, Boku Dake ga Inai Machi é a boa ilustração de como é possível aos animes se desprenderem dos modelos comerciais já estabelecidos, que acabam sendo limitadores de público, e investirem em qualidade artística, e originalidade, em suas histórias.

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Jornalista, aventureiro da internet e assistidor de desenho animado, Daniel Marques é brasiliense, tenta continuar sempre aprendendo e jura que é uma pessoa legal.

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