Após acabar de assistir o filme Festa no céu (The book of life no original, de 2014), o sentimento que me dominou foi… a revolta! Como pode um filme tão bom, tão bonito, tão original, ser tão esquecido, tão desconhecido?! Como pode ser deixado de lado? Eu explico: Foi deixado de lado, certamente, por não representar a cultura estadunidense. Porque é um filme sobre as lendas do México.

Festa no céu apresenta, de início, um grupo de crianças tipicamente estadunidenses em excursão a um museu – mas isso é só o mote para apresentar a história do triângulo amoroso Manolo, María e Joaquín, além de La Muerte e Xibalba, os deuses responsáveis pelos reinos dos mortos. A primeira cuida da Terra dos Lembrados, e o segundo, a dos Esquecidos. Há também o Homem de Cera, que cuida do Livro da Vida, que dá o título original ao filme. (Observações desconexas: Xibalba é um nome comum para quem assistiu o excelente filme A fonte da vida, de Darren Aronofsky; e a dublagem de La Muerte, feita pela Marisa Orth, é ótima!)

Na trama, como Xibalba está cansado do reino dos esquecidos, para onde vão as almas daqueles que já não têm quem deles se lembre no mundo dos vivos, faz uma aposta com La Muerte: ele escolhe Joaquín e, ela, Manolo; assim, fica com o domínio do reino dos lembrados aquele cujo escolhido casar com María. As coisas se complicam quando ele, traiçoeiro, começa a manipular os destinos…

O filme é de uma exuberância só – as cores, a qualidade dos modelos animados… Os personagens são como se feitos de madeira, porque uma história está sendo contada com bonequinhos no museu, e aquilo que vemos na tela parece madeira de verdade! O estilo escolhido para o visual do filme, daquela cidade fantástica no México, é originalíssimo, criativo mesmo, cômico até dizer chega, e as piadas são excelentes também; o diretor Jorge R. Gutierrez leva a estória sem perder em nenhum momento a atenção do expectador.

Personagens Secundários de Festa no céu

No entanto, se você acha que é apenas sobre isso o filme, está enganado! (Se por “apenas” você entender todo o riquíssimo folclore mexicano.) Ainda são abordados na animação, com bastante destaque, temas atualíssimos como a crueldade das touradas – o protagonista é de uma família tradicional de toureiros e é contra a matança dos animais – e o papel de submissão da mulher na sociedade tradicional, explicitado pela personagem María, que se levanta contra a “normalidade” dessa situação. Dignas de nota são também as inserções de momentos da cultura pop na estória, desde as músicas Creep do Radiohead e Can’t help falling in love de Elvis Presley, interpretadas por Manolo, até o hilário golpe shoryuken aplicado pelo campeão Joaquín em certo momento.

Se você ainda acha que Festa no céu é um filme infantil depois disso tudo, reveja seus conceitos – ou melhor, veja o filme. Pode não ser a melhor animação de todos os tempos (e nenhuma tem essa obrigação, afinal), mas garanto que vai ser uma experiência memorável; emocionante até. Se, além disso, você também estiver cansado de ver sempre o mesmo tipo de cultura sendo representada, esse é realmente o filme para você!

P.S.: O dublador original de um personagem secundário – um antepassado de Manolo – é ninguém menos que o tenor Plácido Domingo. E isso faz diferença. 😉

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