O cinema nacional tem sofrido um grande crescimento. Por mais que os filmes brasileiros ainda não agradem totalmente o público, não se pode negar que eles estão cada vez melhores. Compare “Faroeste Caboclo” (2013) com “Luzia Homem” (1984). Apesar da comparação (escrota) radical, é demonstrado um avanço, mesmo que lento. Porém, ainda existem algumas áreas muito pouco exploradas. Um exemplo são os longas de animação. E agora, depois de vários anos de atraso, somos apresentados a uma evolução nessa área (desconsiderando os filmes da Turma da Mônica, claro): “Uma História de Amor e Fúria”.

O longa de Luiz Bolognesi, conta a história do Brasil de um modo diferente. A animação ADULTA, segue a jornada de um herói imortal destinado a conduzir o Brasil para a “terra sem mau” e protege-lo dos males trazidos por Anhangá, o espírito mau que sempre vêm a tona em forma de alguma força opressora. Assim, o herói segue sua jornada, sempre a procura das reencarnações de Janaína, seu amor eterno.

Uma História de Amor e Fúria janaína amor

Deste modo, a animação propõe mostrar certos momentos históricos do Brasil pelo ângulo do lado perdedor, oprimido por Anhangá, se dividindo em quatro blocos: a representação do conflito da colonização do Rio de Janeiro, a Balaiada, a ditadura militar e um futuro distópico onde há falta de água potável no mundo.

A estória tem seus méritos e desméritos. Apesar de ser razoavelmente satisfatória, ela deixa quase inutilizados certos pontos que deveriam ser melhor explorados. Eu gostaria muito se houvesse um aprofundamento maior nas crenças indígenas e no funcionamento do mundo futurista mostrado.

Além disso, existem algumas atitudes inconsistentes e até idiotas dos personagens, as quais incomodam bastante. Logo no início da parte que representaria a Balaiada, o protagonista, em forma de pássaro, encontra a encarnação de Janaína e só de observar já sabe quem ela é. Mas tudo bem, o importante é o que acontece depois. Janaína vê na sua frente um pássaro se transfigurar, bizarramente, em um ser humano. E o que ela fez? Obviamente ela fez sexo com ele! Super normal.

E essas coisas talvez tenham uma explicação. Com o pouco tempo que um filme dispõe para uma estória tão comprida, não era possível explorar muito bem duas áreas. Então temos uma focalização na luta contra a opressão e consequentemente uma falta de aprofundamento nas explicações e nos personagens. E isso causa certos estranhamentos. A estória tinha muito mais potencial do que foi usado. Se ela fosse utilizada em uma série animada, com maior aprofundamento em todas as áreas (e dessa vez com um final plausível), talvez fosse satisfatório.

Mas não tem como deixar de elogiar a contextualização histórica, que é com certeza fruto de muita pesquisa e consequentemente se tornou algo muito coerente e educativo.

Uma História de Amor e Fúria sertão nordeste

Não tendo ainda, no passado, produção semelhante no Brasil, podíamos esperar que a ideia fosse mal recebida pelos patrocinadores. E esse parece ter sido um dos principais problemas da produção. E se há falta pessoas que acreditem no filme, há falta de dinheiro. Os produtores parecem ter sido bastante limitados e obrigados a fazer opções mais baratas. O desenho em si, é o melhor exemplo disso, sendo que os produtores escolheram usar, em boa parte do filme, o tradicional desenho à mão. Apesar da suspeita, não sabemos com certeza, mas podemos notar nas entrevistas do diretor e roteirista, Luiz Bolognesi, que essa parece ter sido uma opção pessoal, não algo alicerçado em quantidade de dinheiro disponível. Será? E consequentemente ao tipo de desenho escolhido, a animação foi bastante poupada. Com inspiração nas animações japonesas, em grande parte do filme é usado a combinação de dois desenhos parados, dando a impressão de movimento, além de que até nas partes mais animadas eram utilizados poucos frames para compor um movimento.

Talvez se, entre desenho e animação, só um dos fatores fosse poupado, ainda fosse “perdoável”, mas juntando os dois, o visual foi bastante prejudicado, ofuscando inclusive os cenários, que muitas vezes são belos e bem desenhados. Na última parte do filme, é notável a melhora em boa parte desses quesitos técnicos, já que a esta parte é totalmente digital. Não é que eu seja um “Puxa-saco” das animações computadorizadas, mas nesse caso, se fosse usada em todo o longa, faria uma imensa diferença.

O filme foi bom, se comparado aos padrões brasileiros, porém muito frustrante sem essa comparação. Particularmente eu não me senti satisfeito ao finaliza-lo. A impressão que ficou foi de que faltou algo (ou muitas coisas) e que a animação tinha capacidade para ser melhor. Mas apesar de tudo, o filme trabalha bem como instrumento educacional de história, apesar das cenas adultas, além de ser um entretenimento razoável para os momentos despretensiosos.

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Jornalista, aventureiro da internet e assistidor de desenho animado, Daniel Marques é brasiliense, tenta continuar sempre aprendendo e jura que é uma pessoa legal.

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